"Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua ação pessoal através de artigos e conferências - Almada-Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós".
Jorge de Sena (1919/1978) in “Líricas Portuguesas” Iº Volume.
Alguns passos, em passo muito largo:
Lisboa
1911, referência à sua primeira publicação, conhecida, na revista “A Sátira”;
1913, na “Escola Internacional” expõe cerca de noventa desenhos;
1915, contribuiu com textos e ilustrações para a publicação “Portugal Artístico ou Ilustração Portuguesa”; colaborou nos dois únicos números da revista “Orpheu” co fundada com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Santa Rita (a “Geração d’Orpheu”) e participou no 1º ”Salão do Grupo dos Humoristas Portugueses”;
1917, é o momento do “Portugal Futurista” (órgão do "Comité Futurista de Lisboa" de parceria com Santa-Rita) com o seu polémico “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”, das intervenções literárias e gráficas, das quais destacamos as no “Diário de Lisboa”, “Athena”, “Presença”, “Revista Portuguesa”, “Cadernos de Poesia”, “Panorama”, “Atlântico” e “Seara Nova”.
Paris
1919-1920, estudando pintura e para se sustentar trabalhando como bailarino num cabaré e como operário numa fábrica de velas.
Não era – e nunca foi - um subsídio-dependente. Antes, sim, convictamente cultor duma integral independência de que jamais abdicou.
Espanha
1927 - 1932, onde deixou obra vasta em colecções particulares.
Alguém o definiu como pintor-pensador. Outros, como um iconoclasta impenitente.
Ele, todavia, define-se em tudo quanto realizou como artista plástico multifacetado e dominador de todas as técnicas, como organizador de happenings e de palestras, nomeadamente radiofónicas e de produções publicitárias para o cinema, como escritor, argumentista e coreógrafo, como cenarista e figurinista.
A propósito desta última valência de Almada Negreiros, na qual se insere a obra que figura na nossa Galeria, não pode passar sem menção a sua adesão ao movimento estético-cénico notoriamente modernista que os “Ballets Russes” (1909- 1929) introduziram a partir de 1914. Movimento que Almada acompanhou atentamente e para o qual contribuíram nomes que bem conhecia (e que hoje são bem conhecidos dos portugueses) como Georges Braque, Sónia Delaunay, Henri Matisse, Joan Miró e Pablo Picasso, entre muitos outros.
Apesar da Guerra, então iniciada, os “Ballets Russes” actuaram em Lisboa em Dezembro de 1917, no Coliseu dos Recreios e em Janeiro de 1918, no Teatro S. Carlos. Porém, em Outubro de 1917, data inicialmente prevista para a estreia em Portugal, Almada, José Pacheco e Ruy Coelho, (Almada Negreiros em 1925 afirmou-se como o único autor) já haviam publicado o manifesto “Os Bailados Russos em Lisboa”, texto posteriormente republicado no “Portugal Futurista”.
A crítica portuguesa reagiu ora indiferente, ora negativa, às actuações da companhia Russa. (1)
Almada, coerentemente com o que vertera no manifesto, aderiu entusiasticamente e passa a conviver com Massine (Léonide – 1896/1979) e com Diaguilev (Serge – 1872/1929) tornando-se íntimos. Almada Negreiros, ao tempo, trabalhava no seu bailado “A Lenda d’Inez” – nunca levado à cena - tendo partilhado com Massine e com Diaguilev toda a documentação pertinente (argumento, cenografia e figurinos) que Diaguilev tanto apreciou ao ponto de lhe pedir que lhe fosse confiada. Levou-a consigo e nunca mais foi devolvida. A morte precoce de Diaguilev, bem como outras condicionantes de natureza vária, conduziu à extinção dos “Ballets Russes”. (2)
(1) Ver: Manuel de Sousa Pinto, “Impressões dos Bailados Russos”, revista “Atlântida” (Dezembro de 1917, Janeiro e Fevereiro de 1918), com ilustrações de Almada Negreiros.
(2) Ver: José Sasportes, História da Dança em Portugal, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian – Edição do Serviço de Música, 1970.
